
Aí o tens, meu caro!
A leitura política que faço da película é que sofreu uma… reviravolta! E era aqui que queria chegar. Perturbou-me o filme. Perturbou-me ver como que um idealista – Pasha Strelnikoff – se transforma, em nome da revolução (sempre em nome da revolução…) num tenebroso sanguinário. Incomodou-me o filme. Incomodou-me sentir que eu, em circunstâncias idênticas, fizera, (salvaguardas as diferenças de protagonismo, claro!) o mesmo e cretino papel – o de guarda da revolução. Ainda que este se tivesse apenas quedado pelo plano ideológico. Mas a verdade é que defendera os mesmos princípios: o partido acima de tudo – família, amigos, afectos. O partido acima das pessoas. Em nome do povo. Sempre em nome do povo. Em nome das massas populares! (era assim que dizíamos). Interpelou-me o filme. Profundamente: se em 75 a revolução leninista tivesse triunfado (não esteve longe disso), até quando é que desempenharia aquele papel? Até quando? Mais. E, talvez, mais angustiante: qual era a linha que eu jamais ultrapassaria? Assustou-me perceber que quando (e enquanto) se acredita na revolução e no partido essa linha de demarcação é muito ténue. O partido toma conta do coração e apodera-se da razão. O partido passa a ser a razão de sermos. E a razão passa a ser a do partido. E é aqui, neste ponto, que se é capaz das maiores crueldades. Basta que a revolução o exija. Basta que o partido ordene.
Incomodou-me. Mas fez-me bem ver o filme. Recomendo-o aos meus amigos (e cavaleiros que foram comigo) das andanças marxistas.

Clube Desportivo Ferrovia - cidade do Cubal
Repare-se nas linhas arquitéctónicas. A foto é da época (1962?), mas a modernidade do edifício é actual. Actualíssima. Era aconselhável que o "ippar" de Angola iniciasse a inventariação e preservação do património respeitante ao período colonial. Estamos a falar do património de Angola. Nossas são apenas as marcas indeléveis.
O Sombreiro, visto do lado da Caotinha
Subscrevo: "viagens com ou sem memória" de J.Pacheco Pereira

Subscrevo:
"A morte de Saddam Hussein" de José Pacheco Pereira in Abrupto. Muito em particular o 3.º parágrafo.


Foto tirada e acabada de enviar pelo Henrique. Obrigado, meu caro.
O que fazem as canções, as grandes canções...
A Cozinha de Manhufe
Eu enunciaria a tese desta outra maneira: Se se condena o abandono dos animais porque não sendo estes pessoas, possuem, porém, vida e, como tal, têm direito a ter direitos, entre os quais o direito à vida... Ora sendo os embriões humanos vida (o que, parece, ninguém põe em causa) deveriam usufruir dos mesmos direitos!
Quem dera
Nas tuas mãos, entre os dedos,
Pousar os meus segredos
Quem dera
No teu leito, nos teus seios
(despidos)
Adormecer os meus receios
Quem dera
Nos teus olhos
(verdes olhos)
Cabelos castanhos aos folhos
Alagar a minha melancolia
Em ondas soltas de maresia
Quem dera
Na tua pele
(vestida de mel)
Adoçar os amargos da minha boca
Que é tão leda
Que é tão louca
Quem dera, meu amor, quem dera
Insinuando o pequeno e leve gesto de os beijar, cruzo os dedos indicadores, e, solenemente, como nos tempos de puto, juro. Juro com Deus: Esta que vou contar não se passou comigo. Juro! Juro com Deus! Com a mesma solenidade, asseguro-vos não desvendar quem foi o herói desta história. Melhor: Juro! Juro mesmo! Com Deus!
Direi apenas que era, na época, um rapaz acanhado, de poucas falas. O rubor traía-o com alguma frequência. Hoje, homem maduro, não perdeu ainda a timidez. Essas coisas, aliás, nunca se perdem totalmente. Mas soube sempre domá-la.
Não me lembro ao certo que ano corria por aquela altura. Certo, certo, é que o terrorismo já tinha rebentado. O boato que dava como iminente a entrada dos turras por ali adentro e que ficou célebre, se a memória me não prega das suas, ocorrera já há dois ou três anos. Tanto que a antiga Escola Primária já se tinha transformado no quartel que veio acolher o Destacamento Militar. A 4ª Classe estava, pois, acabada – já tinha feito provas que sabia de cor e salteado os afluentes do Rio Douro e do Tejo e que conhecia, um a um, os apeadeiros da Linha da Beira Alta e da Beira Baixa! O nosso herói também. Andávamos ambos pelos 12 ou 13 anos. Não mais ou pouco mais. Já tinhamos dado os primeiros passos no Francês e aprendido, para o resto da vida, que há sempre excepções que se esgueiram à regra (todas as palavras terminadas em age, com excepção de... e seguia-se a lenga-lenga).
Os tropas do dito aquartelamento lá andavam. Com pouco que fazer. A actividade resumia-se ao render da sentinela, ao hastear da bandeira e a uma ou outra parada em dias de cerimónia oficial (que terminavam, invariavelmente, com vivas inflamados ao aborígene de Santa Comba e a bem da Nação! Claro!). A guerra passava-lhes ao lado. A nós também. Afinal os turras andavam longe, pelo Norte da Província. A frente Leste não tinha, ainda, sido aberta. Fustigavam a Pedra Verde. Nambuamgongo. Nóqui.



Atrás do Jeep, seguia o Unimog com os restantes soldados. Lá foram todos em cumprimento do dever – patrulhar as redondezas da Vila. Coisa que faziam todas as noites ou quase. Só que aquela era especial. A missão era mais delicada. Levar o nosso herói, pela primeira vez, às putas!
Ao meio do caminho, nervoso, o nosso herói teve vontade de fazer chi-chi. Desceu do Jeep, um pouco envergonhado, meteu-se um ou dois metros dentro do capim e logo aí apercebeu-se das dificuldades que o esperavam: Desapertar os botões da braguilha do camuflado, desabotoar os das calças, e ainda as cuecas. Uff!
Tirou a dita para fora e logo constatou que com tanta roupa, a coisa mal chegava a espreitar o lindo céu estrelado que estava nessa noite. Indeciso, levou a mão à cabeça e coçou-a levemente, preocupado com a parca dimensão que a dita apresentava. Perguntou-se a si mesmo, serei capaz? Estremeceu. Sentiu alguns suores frios. Mas, depois, lembrou-se que aquilo, quando chegasse a hora, iria crescer ainda! Ficou mais descansado. Aliviado subiu de novo para o Jeep.
Quando chegaram ao quimbo aprazado, os tropas, já batidos neste tipo de missão, não tiveram dificuldades em arranjar uma mulher que se dispusesse a mostrar ao nosso herói que a vida é feita de diferentes prazeres.
– Vem “minino” entra! Não tem medo "minino"!
Medo. Medro era o que ele mais tinha. Baixava a cabeça e olhava para a zona nevrálgica na expectativa de ver o volume a aumentar, mas nada! Queda, a dita, mantinha-se inalterável!
– Áca minino! Entra! Insistia a “dama”.
Baixou a cabeça para poder entrar na portinhola da casa – uma cubata feita de pau-a-pique, coberta de capim – e, mais uma vez aproveitou, para espreitar a zona nevrálgica. Com satisfação constatou que a dita começava a compor-se. O ânimo começava a chegar-lhe. Atirou-se então à dama. Ou ao contrário, não sei. Certo é que se embrulharam os dois na esteira, feita de cana e que servia de cama a quem por ali vivia passava ou por ali passava. A luz muito amarela do candeeiro a petróleo e a manta que os cobria não lhe permitia entrever os traços da mulher que tinha por cima dele, nem, muito menos, os pormenores da humilde casa que o hospedava por breves momentos. Breves, mas inesquecíveis e incontáveis!
Quando tudo terminou, levantou-se, abotoou de novo a braguilha e deu-se, então, conta, espantado, que nem sequer tinha despido o camuflado! De imediato uma dúvida assaltou-lhe a mente para o resto da vida: Será que tinha conseguido? Será que tinha sido daquela vez? Ainda hoje, o nosso herói, não sabe responder a essa questão magna. A dúvida continua a persegui-lo. A atormentá-lo.
Meu caro, tranquiliza-te: a virgindade, às vezes, não se perde de uma só vez! Essa é a regra, mas há excepções que por vezes se esgueiram ...
Manuel Sampaio
Maio/Junho de 98, Lisboa

Poemas (ridículos) de amor, quem um dia os não fez...? (I)
Há sempre um cais onde esperar
Uma sombra onde repousar
Uma palavra por inventar
(Uma caipirinha que se bebe
Sem nunca acabar)
Um sorriso
Que se detém nos teus lábios sem se desfazer
Um fim de tarde
Que baloiça na linha do horizonte
E se recusa a escurecer
Um rio
Que corre sem nunca desaguar
Um barco que vai e volta
Redemoinha nos teus seios
Perde-se em círculos na tua cintura…
Onde eu, louco viajante
Me deito a navegar
Espantoso...É espantoso o passo largo, firme e decidido que os EUA deram em tão pouco tempo – menos de uma geração – no reconhecimento do direito a uma cidadania igual e plena a todos os seus cidadãos. Em nenhum outro país do mundo se assistiu (ou se assiste) a um tão rápido processo de integração efectiva dos cidadãos de outras cores ou credos. Percorro as caras dos ministros dos governos Europeus, em particular das ex-potências coloniais que por força da história acolhem desde há muito comunidades de diferentes raças, e não vejo nenhum negro, indiano ou asiático. E altos funcionários do Estado, há-os!? Alimento algumas dúvidas. E apresentadores de Televisão!? Os dedos de uma mão bastariam para os contar (veja-se, em contraponto a CNN). No entanto esta Europa enche todos os dias a boca com seu multiculturalismo e com o seu modelo de integração querendo muitas vezes, com altivez e arrogância, cotejar, neste campo, com os EUA. Espantoso.
.... Era algo de estranho. Algo que não sabia explicar. Um mistério que apesar de muito nele cismar, não lograva decifrar.