Grandes canções


“Non, je ne regrette rien”. A mais popular das canções de Edit Piaff. Cantava-a com uma força inigualável, vinda das entranhas. Quem a ouvia ao vivo ou em gira-discos, ou quem hoje a ouve em vinil (perdão, em CD – mas a verdade é que tenho uma certa aversão em usar siglas e, além do mais, o termo vinil é, hoje, mais "literário" do que o uso daquela sigla…) com toda aquela força dramática, repetindo “não, não lamento nada”, facilmente será levado a crer que Piaff, esse enorme vulto da canção francesa, na realidade, não lastimava nada do que fora a sua vida: Ni le bien, qu'on m'a fait/Ni le mal, tout ça m'est bien égal! Nem o bom que desfrutou, nem o mau por que passou. Terá sido mesmo assim? Não terá Edit Piaff lamentado nada, mesmo nada, do que fez na vida? Não estou certo disso. Quem cantava com aquela amargura, quase raiva, decerto muito penou e algumas penas gostaria de ter evitado. Hoje, é comum ouvir-se, desde políticos ou personalidades relevantes ao mais comum dos mortais, que não lamentam nenhuma das suas opções de vida ou nenhum dos erros que cometeram. Que se voltassem atrás, repetiriam tudo o que fizeram. Soa bem. Nem sentimentos de culpa, nem arrependimentos, nem, tão pouco, interrogações. Estão todos na onda. Como os invejo.
“Erros meus, má fortuna...”

As fotos da minha vida (onde param estes meus cabelos...?)


No caminho entre Benguela e a Catumbela, no quilómetro vinte sete, contados a partir do Lobito, ficava a praia do... Vinte Sete. Tinha um pequeno pavilhão coberto, mas aberto, que servira de suporte a uma antiga pescaria. Creio que, como praia, só era frequentada pela minha família e uns vizinhos nossos da rua Monsenhor Kelling em Benguela. Nunca vi lá ninguem. Aproveitávamo-nos da cobertura para a minha mãe (Dúlia) cozinhar uma bela caldeirada de cabrito ou de peixe com muito jindungo e  para estender o restante farnel que levávamos para o dia de praia. Antes da caldeirada esgotávamos as energias em mergulhos naquelas águas quentes do Atlântico ou na apanha fácil das "quitetas" (cadelinhas). Depois do repasto seguia-se a inevitável sesta que o abrasador calor das Áfricas aconselhava e, mais à tardinha, de novo os mergulhos e braçadas pela praia, evitando as alforrecas que por ali, e àquela hora, davam à costa. E assim se passava um Domingo. 

Como se pode constatar pela foto, era fartos os meu cabelos. Orgulhava-me deles. Gostava das ondas largas que eles faziam. Podia andar todo sujo, ou até mal vestido, mas os meus cabelos andavam sempre penteados. Tratava-os com desvelo. O pente, sempre no bolso detrás dos calções, prontinho e solícito, a ser usado. Nesta época, não eram ainda os cabelos compridos, quase sobre os ombros, dos Beatles que marcavam a moda. Imperavam ainda os cabelos ao jeito do Elvis Preley, penteados para trás, com "poupa"  e brilhantina.

Tal era a minha vaidade no cabelo que um dia, dois anos depois, se tanto, desta foto, o meu pai, de feitio austero e severo, para me castigar de uma grave malandrice, no entender dele, que eu fizera, não encontrou melhor forma de me castigar do que, para além da inevitável tareia, mandar-me ao Zé Maria, barbeiro, rapar aqueles meus cabelos à maquina zero! Foi um golpe duríssimo! O meu cabelo nunca mais foi o mesmo. Renasceu, claro, mas com ondas mais curtas e encrespadas. Quando, finalmente, irromperam, gloriosos, os cabelos compridos, à Beatles, o jeito encrespado que os meus, entretanto,  ganharam com a "tosquia", já não me permitiam deixá-los crescer. Doeu-me. Muito.


Quando o Benfica ganha ao Sporting até as gotas da chuva brilham como brilham os raios de Sol! Há noites perfeitas e luminosas!

Luminosidades


Quando o Benfica ganha e o Sporting perde (ou o Porto, ou, melhor ainda, os dois juntos...) até os raios de luz que inundam a cidade ganham uma outra luminosidade. Uma outra luz.