Fotos da minha vida - III (Os bichos-do-mato)



No imaginário de muito bom português (intelectual ou não) a vida dos colonos era uma vida fácil. Bastava abanar a árvore das patacas para estas, ao primeiro abanão, caírem aos molhos no regaço dos colonos, como as mangas caíam de maduras (e aos montes) ao chão. Além de fácil, de acordo com essa "visão histórica" a preto e branco, era uma vida de exploração (dos colonizados). Mas, em África, a vida dos colonos era dura e arriscada (e dos colonizados também). Eram difíceis as condições de vida. Para quem vivia longe cidades, mais árdua era a luta pela vida que, ao fim e ao cabo, é o fado a que os comuns dos mortais, para muito longe que tentem fugir (como os colonos), não logram escapar.


Em África, a quem se dirigia à cidade não dizia que vinha de um pequeno lugar, dizia-se que vinha do mato, porque a expressão vir do mato ou ser do mato traduzia melhor a lonjura e o isolamento  de onde se vinha. E os que se afeiçoavam a este modo de vida e só muito raramente desciam à localidade mais próxima eram os bichos-do-mato.
Eram pontes como esta, de troncos, que separavam (pela sua fragilidade e risco) e uniam (como único ponto de passagem) a vida no mato e a vida nas pequenas povoações. Lembro-me bem desta. Era arrepiante atravessá-la (hoje é ainda assustador olhá-la). Tudo rangia. As molas da Bedford (que pegava à manivela), os pilares da ponte. A carga de sisal. A carroçaria. Tudo abanava. O ajudante, em cima da carga, segurava-se ao barbante que amarrava o fardo, como um boieiro ao cavalo num rodeio. O camionista tinha que saber apontar bem a camioneta às tábuas da ponte que serviam de trilho. Naquele dia, pode-se constatar, não chovia. Imaginem, agora, atravessá-la debaixo de uma daquelas "torrenciais chuvadas” africanas! Era uma aventura. Era um risco de vida.


Não era fácil a vida dos colonos. E a dos colonizados também.

Fotos da minha vida - II (Nós, os Mendes e o Quendo)




Das fotos da minha infância, esta tem a minha clara predilecção. Vivíamos no mato. No Quendo. Um aglomerado populacional composto por... duas casas! A nossa e a dos Mendes. Ao todo, éramos nove almas que ali vivíamos. Felizes. Longe da “civilização” mais próxima que era o Cubal. Na nossa camioneta, que "pegava" ainda à manivela, demorávamos, no tempo seco do cacimbo, mais de meio dia de viagem  e um ou dois no tempo das chuvas, para chegarmos à tal "civilização". Os nossos pais lutavam pela vida, ali, naquele lugarejo,  e nós, pequenotes, saboreávamos a doçura da meninice, das mangas e das goiabas. Esfalfávamo-nos em loucas corridas de arcos de bicicleta e em felinas subidas aos galhos das árvores em busca dos bem escondidos ninhos dos passarinhos ou em mergulhos arriscados no rio.
O rio era o Catumbela, que, muitos quilómetros mais adiante, iria desaguar no Atlântico, junto à cidade do Lobito. No tempo das cheias as suas águas turbulentas e barrentas passavam quase à beira das nossas casas. E era ali, naquela margem, quando o rio ia mais calmo, que as duas famílias se juntavam em refrescantes e agradáveis piqueniques. 

A fotografia terá perto de 60 anos  e  tem – o que é raro em fotos – dois focos: os que olham para a câmara (o meu pai, sentado, o Sr. Corona, o Sr. Mendes, a D. Joselinda, a minha prima Maria e o homem mais alto de quem não me lembro o nome) e os que centram a  atenção na minha tentativa de arranjar um lugarzinho na fotografia e para a posteridade: a minha mãe, a minha irmã (de laçarote) e a Matilde que me ajuda a equilibrar e foi quem me ensinou as primeiras letras (a minha 1ª classe foi doméstica). E há um, de boné, que, embora esteja no centro geométrico da foto, passa ao lado de toda esta acção. Estava longe dali, talvez na serra para onde olhava. Estava, como hoje se diria, “na dele”, o Zeca (irmão mais novo da Matilde e da Isaura) – o meu companheiro e amigo das corridas com arcos de bicicleta. 

Bons velhos tempos!



As fotos da minha vida - I (O Mousinho)





Num chuvoso dia de Abril, nos idos de 1953, depois de uma longa viagem numa  camioneta da companhia Cabanelas, que, ida de Vila-Real, percorrera temerosamente o serpentado de terra batida da serra do Marão e atravessara o rio Douro em direcção à capital do então Império, a minha mãe, nesse mesmo dia ainda, subia a custo, com a minha irmã ao colo e comigo pela mão, as já gastas escadas de portaló do velhinho paquete "Mousinho" que, curiosamente, fazia a sua última viagem de ida-e-volta pelos mares. O destino era a moderna e laboriosa cidade do Lobito onde o meu pai, ali desembarcado um ano antes, já tisnado pelo Sol de África, nos aguardaria. Tinha dois anos e três meses. A minha irmã um ano.

Foi com uma particular emoção que há uns tempos descobri (a "web" tem esta virtualidade) esta foto do Mousinho e um pouco da sua história à qual o destino me ligou. Construído na Alemanha, de bandeira brasileira, recebeu o nome de Corcovado e mais tarde Maria Christina. Veio a ser adquirido, em 1932, pela Companhia Colonial de Navegação, sendo baptizado, e assim acabou os seus dias, com o nome de Mousinho.

Como é de calcular não tenho qualquer memória desta primeira viagem marítima. 

A diferença não está só na cor das gravatas...

 
 
Ontem, ao ver a triste exibição, embora empenhada, deste meu actual Benfica diante do nosso eterno rival, lembrei-me de uma expressão da minha saudosa e arguta professora de muitos anos – D. Cecília. Quando se apercebia – e como lhe era tão fácil dar conta! – que um aluno se apresentava com uma qualquer “matéria” mal alinhavada, estudada por alto, decorada, mas mal assimilada, atirava-lhe de imediato: “tens tudo isso colado com cuspe”. Ora, assim me parecem os processos de jogo do Benfica de Rui Vitória. Colados com cuspe. Mal assimilados. Mal trabalhados. A olho nu, vê-se que ali não há consistência, não há organização táctica e não há uma “ideia de jogo”. Tanto está no jogo bem, como logo a seguir desparece por completo. A qualidade do jogo, quando a há,  não emerge do trabalho que se fez durante a semana, mas da inspiração e do entendimento que dois ou três jogadores possam em dado momento do jogo ter ou não ter. Isso é nítido. A equipa está mal trabalhada. Na semana passada, melhor do que ninguém, e sem, de certeza, o querer,  Jardel, ao jornal “A Bola” , resumia assim o que acabei de dizer: «Rui Vitória deixa-nos muito mais à vontade». E os jogadores, gratos, vá lá, pagam esse estarem "à vontade" com empenho que, sem dúvida, têm mostrado. Mas tão só. Pois é. Estão vontadinha e entregues à inspiração de cada um. Há uma exasperante falta de liderança. Por uma simples razão: Rui Vitória não é um líder. Ponto.

Imaginem que as declarações que a seguir vou transcrever não teriam sido ditas por quem provocatóriamente as proferiu –  e que causaram grande celeuma –  mas que teriam sido enunciadas por um dos muitos comentadores desportivos: «Com o tempo as rotinas vão acabando. O cérebro daquilo não está lá, o treino não é o mesmo…». Desde logo, não teriam causado polémica nenhuma porque não configuravam um auto-elogio arrogante, a que nós, portugueses, somos avessos e que só o desculpamos em José Mourinho (enquanto ganhar...). O que é que ressaltava hoje daquelas palavras? Que tinham sido uma antevisão premonitória e certeira do que é hoje o Benfica. Na altura, provocatoriamente e com uma arrogância que não lhe concedemos, Jorge Jesus estava a ficcionar o filme do que se iria passar com o Benfica sem ele. Agora estamos a ver o filme transporto para a realidade. E é um pesadelo.
Jorge Jesus acertou em cheio. Na "mouche". E, assim, sem o "cérebro", vão três: a Supertaça, a Taça de Portugal e três na Luz... É o tri. Não o que queríamos, mas o que não desejávamos...

Dizem algumas vozes que falta talento e soluções ao Benfica. Que perdeu qualidade. Que Filipe Vieira não deu ao Rui Vitória o que magnanicamente  ofereceu ao Jorge Jesus. Que o Sporting, e essa é a grande diferença para o Benfica, possui um bom e forte meio-campo. E dizem-no como se o presidente do Sporting tivesse adquirido no início da época um novo meio-campo e oferecido a Jorge Jesus. Dizem essas mesmas vozes que o problema do Benfica está, ao contrário do rival, exactamente no meio-campo. Qua falta alguém, um “play-maker”, ali no miolo. Mas repare-se: o meio-campo do Sporting (Adrien, William e João Mário e todos com origem na formação...)  já lá estava no ano passado! Não há ninguém novo!  Quanto ao Benfica, qual era o meio-campo no anao passado? Samaris, Talisca e Pizzi.  Por onde é que andam? Não é que estão lá todos, todos! Qual é então a grande diferença entre o miolo do Benfica, hoje, e o miolo do Sporting, hoje? A grande diferença –   julgo que estará na cabeça de todos (daqueles que não se recusam a ver) –  chama-se Jorge Jesus,  o “cérebro”! Esse mesmo que, sabendo bem o que vale, narcisicamente, assim se autointitulou. Esse mesmo que, expressando-se nem sempre em bom português, passa magistralmente a mensagem. que pretende. Mobiliza jogadores e adeptos. Dá corpo e alma às equipas que orienta. Esse mesmo, que é um líder nato, um incansável profissional e que, reconheçamos com a humildade que nele mingua, percebe “montes” de futebol. Esse mesmo de quem os comentadores  e "intelectuais" do futebol não gostam. Esse mesmo que o Benfica amadureceu ao longo de seis anos para... o oferecer de bandeja (qual passe!) ao Sporting!

E é isto que me dói.

 

Paris

Não percebo, sinceramente não percebo, que diante de um acto terrorismo desta envergadura, mesmo antes de se dar corpo à indignação, senão mesmo à revolta, que este acto ignóbil exige, a primeira preocupação de muita gente seja a de manifestar receio pela eventual suspensão do acordo de Schengen, suspensão que aliás o próprio acordo prevê em situações idênticas a esta, e que seria sempre um mal menor face ao mal maior que é o terrorismo islamita, e pelo receio de se gerarem certas pulsões islamofóbicas. Receios, aliás, que se têm mostrado injustificados, como  se  viu pela "reacção" ao ataque terrorista ao Hebdo, mas, receios e medos, com que os terroristas jogam e exploram com mestria e vão, assim, avançando, avançando, avançando.

É preciso assumir definitivamente que estamos numa guerra -- que nos foi abertamente declarada -- contra a civilização das luzes e da liberdade que é a nossa, a Ocidental (que também teve as suas trevas, é bom lembrar e reconhecer). Mas é preciso assumi-la (a guerra e civilização) sem medos e sem vergonha (Glucksmann). E uma guerra não se ganha apenas com sistemas e preocupações de índole securitária, a dada altura é preciso passar à ofensiva. É este o momento. Não se pode esperar paulatinamente pelo próximo atentado. Mais, nesta guerra tem que se exigir ao Islão moderado, se o é, que mostre de que lado é que está. É muito estranho que face aos sucessivos e monstruosos atentados o Islão moderado continue em silêncio. É estranho, muito estranho, que face a tudo isto não venham em massa para a rua gritar bem alto e de uma forma autêntica, que estes actos terroristas  atentam contra a humanidade e contra o seu Islão. Mas quando alguém ofende o profeta, por palavras ou caricaturas, já sabem vir para rua em massa, queimar bandeiras e mostrar a sua raiva e o seu ódio infinito. É estranho. Muito estranho.

Estou revoltado. Muito revoltado. Com tudo isto e com a passividade de um certa intelectualidade europeia, quer de esquerda, quer de direita, que, perante os ataques criminosos à sua (e à nossa) liberdade por parte do terrorismo islâmico se agacham refugiando-se no silêncio ou, quando falam é apenas para se manifestarem receosos de um eventual islamofobismo. Mas são os mesmos que ao mais pequeno gesto ou tique da Igreja Católica menos consentâneo com a LIBERDADE, que logo colocam em maiúsculas, saltam como heróicos e fogosos combatentes da liberdade supostamente em causa. Estou revoltado. Muito. Mas sereno.

11 de Novembro

A propósito da independência de Angola, deixei no "Duas ou três Coisas", blog do ex-embaixador Francisco Seixas da Costa, que foi embaixador em Angola durante os anos de 82 a 86:
 
Estava lá nessa noite. Em Luanda. Eu e o meu grupo de amigos, estudantes universitários, todos afectos ao MPLA, decidimos não estar presentes no local da cerimónia, na altura recém-denominada praça 1º de Maio, por razões de segurança, como, aliás, a esmagadora maioria da população de Luanda. A cerca de 30 quilómetros de Luanda, em Kifandongo, travava-se a mais dura das batalhas entre as forças do MPLA (as FAPLA), apoiadas pelo exército cubano, e a FNLA de Holden Roberto alimentada pelo exército da república do Zaire. Ouvia-se em Luanda a artilharia pesada. Não se sabia qual o epílogo dessa batalha. Temia-se que o tenebroso Holden Roberto pudesse entrar em Luanda. A chacina seria grande. O medo era justificado. Esse temor levou a que a população ficasse em casa. Eu incluído. Hoje, lamento não ter assistido a esse momento histórico. Mas, hoje, é um momento histórico que não comemoro.

“É minha impressão ou nestes anteriores comentários há muito saudosismo, muito "Africa adeus"?”

Caro embaixador,

Uma coisa é, quem nasceu ou se conheceu em África, como eu que fui para lá com dois anos de idade, e que lá viveu durante muitos anos (regressei em 77), ter saudades desses tempos que eram, sem qualquer dúvida, “tempos coloniais”, outra coisa é ter saudades do colonialismo. São coisas bem distintas. E em muitos destes comentários, ajuízo eu, há mais saudades dos “tempos colonias” do que do colonialismo. E em muitos deles permanecerá ainda uma réstia de amargura. Porque, talvez, alguns deles, ou os seus pais, viveram e sofreram esses tempos, que a tragédia da descolonização desordenada foi”, como bem disse.

Melo Antunes foi, dos militares de Abril, o mais corajoso. Fez o 25 de Abril. Fez o 25 de Novembro e nesse mesmo dia teve a coragem de matar à nascença uma “caça às bruxas” que se adivinhava, ao afirmar que não haveria de democracia se o PCP fosse dela excluído (e hoje, por razões óbvias, é bom recordá-lo). E já no fim da vida, ao contrário de outros, que juntamente com ele tiveram papel preponderante na descolonização, teve a coragem de reconhecer que poderiam ter feito melhor descolonização. É a humildade dos grandes.

Subscrevo inteiramente este seu último “post”, excluindo um “senão”, mas da maior importância: “a tragédia que foi a colonização”. Reduzir a colonização a uma tragédia é um grande erro de perspectiva histórica: o Brasil é o que é hoje, culturalmente falando, “graças” à colonização. Sem ela o Brasil até poderia ser bem melhor, mas não seria a mesma coisa… você que o diga. As suas fronteiras são o que são hoje, “graças” à colonização. Hoje, os brasileiros orgulham-se delas e, se for preciso, bater-se-ão por elas, mas antes foram os colonos que as desenharam e, em alguns casos, morreram por elas. O mesmo se passa com as de Angola e com as dos outros países (excepto Cabo Verde). Hoje há cerca de 280 milhões de falantes em português e é uma das línguas mais faladas no mundo, “graças” à colonização. Hoje fala-se em lusofonia, com a qual muita gente “enche a boca”, “graças” à colonização e…, vou ousar dizê-lo por ser historicamente verdade, graças aos colonos! Graças aos colonos! Se se debita, e bem, aos colonos as tragédias da colonização, que as houve e muitas, é inteiramente justo creditar-lhes algumas das suas boas e belas heranças.

“Pode-se ir à Índia sem Vasco da Gama? Talvez possa, mas para um português, não se deve. Não digo tanto “sem Vasco da Gama”, mas “sem Goa”, sem a memória da nossa identidade que lá ficou um pouco enterrada e está a cair aos bocados. Mas mesmo que já estivesse toda no chão, enterrada por desprezos diversos, o lugar está lá, as almas estão lá num canto qualquer a assombrar-nos. A história é assim: não se pode ir à Índia com inocência absoluta, nem aliás os indianos nos responderão com inocência. A história pesa. Não é saudosismo, é respeito por nós próprios que fomos feitos por aqueles homens que por lá andaram à espadeirada, à pimenta, na pirataria, brutos, cruéis, gananciosos, vaidosos, crentes, santos, líricos, o que se queira, mas nossos. Vem nos Lusíadas, que tanto patriota cá da casa gosta de bater no peito, para esquecer quando vê um call center deslocalizado”. Palavras escritas por Pacheco Pereira, a propósito de uma viagem de um presidente da República à India… (em Abrupto 12/01/07)

Maria Barroso

A propósito do desaparecimento de Maria Barroso, deixei este comentário no Duas ou Três Coisas:

Senhora de grande coragem e grande cultura. Recordo-me da primeira vez (e única) que a vi. Estávamos em plena crise académica em Coimbra em 1969. Tempos difíceis, apesar da "abertura marcelista". Contavam-se pelos dedos os que tinham a coragem de publicamente manifestar solidariedade à luta dos estudantes. Professores foram poucos: Paulo Quintela e Orlando de Carvalho. Maria Barroso, juntamente com Tóssan, teve essa coragem. Numa das muitas assembleias gerais que se realizaram no enorme ginásio da A.A.C., a abarrotar de "malta" (eu pendurado num dos espaldares), esteve presente para manifestar a sua solidariedade e a “de outros que ali não podiam estar", como referiu na altura. Disse dois poemas com o seu timbre inconfundível e a sua irrepreensível dicção: Nossa Senhora da Apresentação de Álvaro Feijó e Llanto por Ignacio Sánchez Mejías, mais conhecido por A las Cinco em Punto de la Tarde, de Garcia-Lorca. Inolvidável. O meu pesar pela sua morte. Que descanse em paz.

Músicas do meu tempo

Há um tempo que é nosso e há um outro tempo que sendo ainda nosso já deixou de ser o nosso tempo. É por isso que nós – os que já contamos dois tempos – dizemos com uma frequência cada vez maior: no meu tempo…

Desse tempo, a que chamamos “o nosso tempo”, há coisas que nos ficaram indelevelmente gravadas para sempre. Sabores, cheiros, imagens, pessoas, objectos, brincadeiras, palavras, livros, músicas, marcas, filmes. E é exactamente por isso, e por estas  coisas, que a esse tempo chamamos o nosso tempo. E quando hoje, neste tempo que já não é o nosso tempo, uma dessas coisas nos vêm à memória é como se por breves instantes – mais fugazes que breves – toda a realidade daquela época nos envolvesse de novo. Voltamos de novo ao conforto daquele nosso tempo.
Isso acontece-me, por exemplo, quando oiço esta e outras músicas do meu tempo que hei-de trazer aqui:





 

A Lenda Maior - Eusébio Eusébio Eusébio

 
Partiu a figura maior do Sport Lisboa e Benfica. Fica-nos a lenda. Dou-me conta que esta lenda faz parte das mais indeléveis memórias da minha infância e adolescência. Nos meus livros da escola, onde havia margens ou páginas em branco, escrevia repetidamente: Goooooooooooooolo do Eusébio! Gooooooooooooooolo do Eusébio! Não me cansava. Aqueles golos supersónicos (estávamos, então, na era dos foguetões…) chegavam a África, direitinhos à minha alma benfiquista, pelas vozes magistralmente radiofónicas do Artur Agostinho e do Amadeu José de Freitas. Eram os relatos. Épicos relatos. Nas tardes soalheiras dos Domingos o meu relvado era o Parque da Vila ou o Parque do Ferrovia (verdadeiros olimpos da minha juventude) e o rádio transístor (o mais recente “gadget” da época) o inseparável companheiro sempre bem chegado ao ouvido. Chegavam golos de todos os sítios: da Luz, da Tapadinha, de Alvalade, do Mário Duarte, do Estádio do Mar, do Vidal Pinheiro, das Antas, do Lavradio… Nos dias que se seguiam, radiante (com despreocupação própria de menino), repetia incessantemente de viva voz a caminho da Escola os golos do Eusébio. Chegado à escola, mal lograva esconder-me do olhar atento e severo da professora Mariana ou da D. Cecília inundava os livros e cadernos com os golos do Rei. Era o meu herói. Atirava ao golo com mais pontaria e destreza com que John Wayne, de pistola na mão, acertava numa lata atirada ao ar ou, naquela derradeira fracção de segundo, atingia mortalmente um índio felino, antes de este cravar um punhal nas costas do desprevenido e “inocente” cara-pálida! Era certeiro. Demolidor. Tão certeiro que muitos dos seus golos, acreditem, saíam-me da garganta ainda antes de ele os “disparar”. Era temível. E temido pelos adversários. Difícil, era “placá-lo” (acredito que só um central intransponível como o meu querido amigo Zé Lemos o conseguiria fazer). Só a morte o não temeu. Mas a sua lenda venceu já, inapelavelmente, a lei implacável da morte que agora o levou, goleando-a para a eternidade.

Momentos

As pessoas que eu amo e as que me amam (ainda) perdoar-me-ão a troca. É ao fado, à melancolia do fado, à poesia cantada em fado (em fado menor) que  eu recorro. Recorro e socorro-me. É onde me refugio quando às vezes fujo à procura de algo ou com medo de algo que não sei o que é. (Será de mim?). É aí que me reencontro. É aí que sereno. E é aí que um leve alento se abeira de mim (e rabisco). São momentos...   Irrepetíveis... Fugases...

Olhos nos Olhos

Beijo-te, meu amor, como o amanhecer
(lento e sem pressa)
Beija a luz do dia.
Os dedos das minhas mãos
Nos vértices dos teus lábios dançam.
A seda preta que de mim
O teu corpo esconde,
As minhas mãos desnudam.
E nua,
Com o fogo das quentes tardes africanas,
O teu ousado corpo beijo.
Mário Guarany

Abril (e eu)



Aí está de novo o 25 de Abril. E já passaram 35 anos! Foi ontem… não foi…!? "Aqui Posto de Comando das Forças Armadas…". Foi assim que começou. Foi nesse dia, assim, com aquelas palavras, que tudo começou… Que tudo começou a ser diferente. O país. As gentes do nosso país. Os países que faziam parte do nosso país. As gentes desses países. Todos. Todos passámos a ser diferentes. As pessoas. A mentalidade das pessoas. As relações entre as pessoas. Tudo e todos passaram a ser diferentes. E os que a seguir àquela data nasceram, mais diferentes ainda.

Para mim, não foi bem nesse dia que tudo começou… Não foi bem nesse dia que comecei a ser uma pessoa diferente do que era até ali. Foi, curiosamente, também em Abril. Num outro dia. Num outro ano. E numa outra década. Foi a 17 de Abril de 1969. Em Coimbra. Cinco antes do 25 de Abril! Estalara, então, a Crise Académica de Coimbra. (Fez agora quarenta anos). E foi nesse dia que comecei a ser uma pessoa diferente. A pensar. A pensar-me. A pensar sobre as coisas. A dar conta que mesmo "no céu cinzento/sob o astro mudo" “não há machado que corte a raiz ao pensamento”. A perceber que havia quem, de uma forma organizada e violenta, tinha por missão impedir que o pensamento que clamava por liberdade (e por tantas outras coisas) se espalhasse como "a trova do vento que passa" por todo o país.
Morria também nesse dia (desnecessariamente... percebi, depois, que não era necessário destruí-lo) o meu romantismo dos “verdes anos” e nascia, inevitavelmente, aquilo que chamava pomposa e ufanamente a minha consciência política. Como eu me sentia (estupidamente) bem quando pensava que aqueles que não percebiam as coisas que eu percebia, não percebiam (o que eu percebia) porque não pensavam. Porque não tinham a "tal" consciência política que eu tinha. Que eu tinha adquirido. Eu tinha consciência e eles, pobres coitados, (dizia eu para mim com um discreto, como convinha, sentimento de superioridade) não tinham. Não a tinham. Porque no dia no dia em que a tivessem, julgava eu, o país e o mundo seriam definitivamente diferentes…para melhor (claro!).
Morria, assim, o meu romantismo dos verdes anos. Nascia, dessa maneira, a minha consciência política. E era afinal tão ingénua aquela consciência política que só mais tarde me dei conta, muito mais tarde, que, afinal, nesse dia nascera um outro romantismo. Um romantismo que, julgava eu, ia mudar o mundo. O país e o mundo. Mais ainda: que ia mudar o Homem (que tamanha ingenuidade!). Um romantismo que levado às ultimas consequências (e se assim não fosse levado, não era romantismo) se mostrava e se mostrou intolerante. Muitas vezes até violento, para quem não pensava como nós, para quem não queria mudar o mundo.

(A propósito, lembro-me de um dia, um militar de Abril - talvez aquele a quem mais a democracia deve e aquele que mais pensava e reflectia sobre a revolução de Abril, e que teve, juntamente com outros, grandes responsabilidades no processo de descolonização - ter tido a humildade de reconhecer, a propósito exactamente da descolonização, que se podia (e se devia) ter feito muito melhor. De todo aqueles que tiveram grandes responsabilidades (para o bem e para o mal), foi o único, até hoje, que o reconheceu. Estou a falar do major Mello Antunes. Todos os outros se justificam e se refugiam nas circunstâncias históricas fazendo crer que tudo era inevitável. Nem tudo era inevitável. Nem tudo.)

Ainda assim valeu a pena. Se valeu! Se valeu! Mas se tudo se repetisse haveria coisas que eu também não repetiria. Muitas coisas. Muitas coisas. E uma delas a nível muito pessoal e sentimental (Ah! Sentimental… palavra que eu e outros, estupidamente, nesses anos abandonámos por… não se coadunar com o fervor revolucionário…). E essa foi em Luanda. (Sim, meu amor, estou a falar de ti). Prestaria mais atenção aos outros e a mim próprio. Prestaria mais atenção às vozes dos outros (e, acima de tudo, à tua meu amor) e à minha voz (àquela que vem cá de dentro).

Luminosidades

Persistem os raios de sol e de luz… Hoje não fujo deles. Hoje bebo-os como se fossem cristalinos fios de água. Água fresca… Água escaldante… É desta água que eu vivo!

Luminosidades

Hoje é mais um desses dias... Apetece-me fugir (não sei bem para onde) dos raios de sol e de luz. Porra!

Para ti, meu amor (querido)

Muito.
Muito.
Muito.
Muito.
Muito.
Muito.
Muito.
Amo-te muito.

Amo-te muito,
Meu amor.
Meu amor querido.
Meu amor querido.
Meu amor querido,
Amo-te muito.
Muito.
Muito.
Muito.
(Amo-te muito meu amor querido)
Muito.
Muito.
Muito.

(Tanto, tanto, tanto que me não cansaria, por fim, desfalecer
Repetindo… repetindo… repetindo…
Amo-te muito. Muito. Muito. Muito.
E assim reboar… reboar...
Como infinitamente reboam os sinos, os sinos, os sinos
De Allan Poe)

Lisboa, 29 e 30 Março

Um poema com amor (muito)

Eras o rumor das ondas do mar
E eu não te ouvia
Eras o verde vento que mal soprava
E eu não te sentia
Eras o verde quieto das árvores
E eu não te via
E o azul que se estendia do cimo daquela escarpa
Era o azul do céu que à tarde se incendiava
E eu não percebia…
Eram as cores da íris dos teus olhos…
(E só aí entendi)
Eras tu, eras tu, que vinhas lá longe
E eu não te via

Lisboa, 5/6 de Março

Luminosidades

Aqui está um ramo de raiozinhos de luz. Um bouquet. Parabens! Muitos parabens!.

Luminosidades

Há raios de sol assim: doces e meigos. Não queimam. Aquecem a alma. Aquecem a alma por dentro.

Luminosidades

Há dias assim: apesar do sol têm a melancolia de um legato de violoncelo ao final da tarde.

Luanda

Até há bem pouco tempo, quando falava de Angola e das suas cidades, tinha a mania e o cuidado de precisar que havia uma cidade que não me deixara saudades! A cidade era Luanda! Que Luanda, tirando, talvez, a ilha e o Mussulo, nada ou pouco me dizia. Para além (claro! claro! claro!) dos amigos (e) do Convívio da Faculdade de Medicina. Saudades, saudades, sentia-as apenas, e fundas, do primordial e eterno Cubal, da moreníssima Benguela, do Lobito (mais) cosmopolita e do mato. Do mato profundo e silencioso das terras do Quendo e do Lutira onde, com a minha irmã e os meus primos (também meus irmãos), passei a meninice à caça das zonguinhas e das rolas, a "conduzir" arcos de bicicleta com a ajuda de pequenos cacetes, ir à pesca com anzóis pendurados em canas de bambu e a tomar banho nos rios sem calcular o risco que às vezes corríamos (os jacarés, como nós, eram também comensais daqueles rios), e que só a estes sítios gostaria um dia, verdadeiramente, de voltar. Luanda não. Luanda serviria apenas para fazer escala e escapulir-me de imediato para aqueles lugares mais longínquos e "sagrados".
Mas há uns tempos, no verão passado, disseram-me que a Visão acompanhava a revista que saía nesse dia com dois DVDs sobre Angola dos anos 70. Corri a comprá-los. A revista não a li. Desfolhei-a. Os vídeos, acreditem, também não os vi. Guardei-os. Há certas coisas que só gosto de ver ou ouvir (como um fado do Camané) quando um certo estado de alma se avizinha. (Não vale a pena precisar qual). Guardei-os, como se de um tesouro se tratasse, à espera desse momento.
Aquele estado de alma furtivamente abeirou-se de mim há dias. Lembrei-me dos DVs. Fui vê-los. Comecei com o vídeo sobre Luanda. Foram muitas as coisas que passaram diante dos meus olhos. Foram muitas as emoções que me encheram a alma e muitos os pensamentos que me assaltaram a cabeça, alguns deles contraditórios, outros politicamente pouco correctos, mas todos eles genuínos. Afinal, descobri, que tenho saudades de Luanda! A minha dúvida, se é que na realidade a tenho, é se são saudades de Luanda ou se são saudades daquela Luanda. A Luanda daqueles tempos. Inclino-me visivelmente mais para esta última hipótese. Os Luandenses de hoje e aqueles Luandenses (poucos, muito pouco – mas é sempre assim historicamente) como Luandino, que foram vítimas ou tiveram consciência (como eu partir de uma dada altura também tinha) do regime colonial em que que se vivia que me perdoem mas é mesmo daquela Luanda que, afinal, descobri, que tenho mesmo saudades.
O documentário está muito bem feito. Aliás, creio, que é um documentário feito na época para servir de propaganda ao regime colonial. Uma boa propaganda. Mas a verdade é que a realidade que nos é mostrada estava lá, existia, não era uma encenação. O progresso, a construção de edifícios modernos, as escolas frequentadas indistintamente por meninos brancos e pretos, os liceus, a Universidade, as piscinas, os Cinemas, as esplanadas, os mercados, o trânsito animado, os polícias sinaleiros, as grandes avenidas. Tudo isso estava lá. Claro que havia uma outra realidade que não nos é mostrada. A dos bairros de lata e da luta clandestina, por exemplo, e não menos importantes. Mas tão real era uma como outra. E aquela da qual, afinal, tenho saudades é mesmo daquela que nos mostrada neste documentário! Descobri que tenho saudades, muitas saudades da cidade que, durante muitos anos, eu estava convencido que saudades não me deixara. Sem problemas de consciência, nem sentimentos de culpa é da Luanda colonial que tenho saudades. Muitas.

Luminosidades

Os raios de sol voltam a bater nas vidraças da minha janela. Conto-os pacientemente. Há um raiozinho de sol que falta. Aquele.

O universo dos amigos está também a minguar

Mais um amigo partiu (nunca se saberá para onde). Não resistiu a uma leucemia, apesar do transplante da medula (da irmã) que lhe foi feita. Há alguns anos que deixara de aparecer aos Encontros dos Estudantes do Cubal. Há dois ou três meses sentindo-se em franca recuperação prometeu-me que este ano não faltaria. Senti nas suas palavras que precisava do alento dos velhos amigos. A doença atraiçou-o. Não o deixou cumprir a promessa. Estou a falar do Norberto. O Norberto? Sim, o Norberto. O Norberto Querido Mendes. Até sempre Norberto.

Quarto Minguante

A vida é feita de ciclos. Hoje termino mais um. É o meu último dia de trabalho. Reformo-me hoje.
A sensação é estranha. Muitas vezes – particularmente naqueles dias em que somos inundados por mails, objectivos e mais objectivos, urgências em cima de urgências, às vezes entremeadas por orientações contraditórias – ansiamos por este dia. Chegado o dia... parece que aquele frenesim já nos faz falta. É estranho.
Mas o que mais angustia é pensar que o ciclo que agora se inicia será o ciclo derradeiro ... o Quarto Minguante... a seguir já não virá uma nova Lua Nova.

As Segundas-Feiras

As Segundas Feiras são por regra penosas. Aprendi, no entanto, com a saudosa D. Cecília, a poropósito do Francês, que há sempre excepções que se escapam à regra. É o caso desta Segunda em que o Benfica, neste último Sábado, aviou, sem apelo nem agravo, o rival dos bons velhos tempos com dois secos... Não há melhor maneira de iniciar um semana de trabalho! É um gozo.
Ainda assim não se compara ao gozo daquelas Segundas-Feiras em que o Orlando Varandas e Zé Lemos fustigavam, com um humor corrosivo e implacável, os irmãos Resendes, (que eu me lembre) únicos e indefectíveis Sportinguistas do Colégio. Era um gozo...!
Bons velhos tempos a que o Benfica parece querer regressar!
Não há mal que sempre dure nem bem que não acabe. Acabaram-se as minhas férias...

A crise

Vale a pena ler quem reflecte sobre as coisas. Exige algum tempo disponível, dá algum trabalho, mas vale a pena.

Liberdade


A Ingrid Betancourt foi libertada. Uma dupla satisfação: A libertação, ela própria, e o facto de não terem sido as mãos (sujas) de Hugo Chavez a libertá-la. Desapontamento para os recém-amigos Hugo e Mário Soares...

Barack Obama, Mariza e os ventos...

Ainda não percebi porque é que Obama é apontado como o primeiro candidato negro na história dos EUA. Não percebo. Estou farto de reflectir nesta questão e continuo a não entender. Se considerarmos que é de origem negra, efectivamente é o primeiro. A questão é, exactamente, esta. Por que é que consideram Barack Obama negro? Por ser não branco?! Todos os que não são brancos, são, então, negros?! – do meu ponto de vista, não descortino conceito mais racista do que este – Por ser filho de pai negro!? Bom, se o fundamento para o considerar como primeiro candidato negro na história dos EUA é este indesmentível dado genético – ser filho de um negro – então, eu, usando o mesmo critério, fundamento-me num outro factor genético igualmente indesmentível – ser filho de uma branca – para considerá-lo como mais um candidato branco!

Barack Obama, esta é que é a verdade, tem tanto de negro como de branco. Ou será que, agora , um factor genético vale mais do que o outro? Há factores genéticos de primeira e outros de segunda!? Reformulo a pergunta dando-lhe maior exactidão histórica: Ainda há (dantes havia) factores genéticos de primeira e outros de segunda? O do lado do pai por ser negro é um factor de primeira e o lado da mãe por ser branca é um factor de segunda? Ingénuo.. Eu julgava que o século XXI tinha acabado de vez com esta classificação. Afinal não. Virou-a apenas ao contrário. Deu-lhe uma volta de cento e oitenta graus: o que era antigamente considerado um factor de primeira – a origem branca (contra o qual Luther King e muitos outros lutaram e sacrificaram a vida), passou, agora, a ser considerado (sem que ninguém questione) um factor de segunda. O que era considerado de segunda passou a ser de primeira. São os ventos…

Argumentar-se-á que se exalta o factor genético negro por o candidato viver numa sociedade maioritariamente branca. Não é consistente este argumento. Proponho então este exercício simples: Imagine-se o mesmo Barack Obama, resultado do cruzamento dos mesmíssimos factores genéticos (branco e negro), mas como candidato, por exemolo, à presidência da República do Quénia – sociedade maioritariamente negra. Alguém exaltaria, chamando a atenção para o ineditismo histórico, o factor genético branco (que também o tem) para o apontar como o primeiro candidato branco à presidência de uma república maioritariamente negra? Ele, candidato, aceitaria, em busca de votos para sua eleição, que fosse invocada a sua origem branca? Só a oposição o faria... Estou seguro que a esconderia!

Há semanas, já em campanha, o senador foi ao Quénia visitar a terra natal do pai. Encontrou-se com uma sua avó. Foi um gesto bonito e comovente. Foi um regresso muito aplaudido às suas origens negras. Alguém imagina o mesmo Barack Obama candidato à presidência da República do Quénia, a fazer uma viagem até Wichita (Kansas), terra natal de sua mãe, e visitar, no momento particularmente importante da sua vida, os seus antepassados brancos? Esse regresso às suas origens brancas seria igualmente aplaudido? A imprensa consideraria esse gesto igualmente bonito e comovente? Tenho largas dúvidas. Mas se o fizesse daria, não tenho dúvidas, uma forte machadada no preconceito racial

A verdade é outra. Ter "origem negra" está na moda. Hoje quem tem um ascendência negra ainda que remota não se esquece de a invocar. A Simone de Oliveira já (se) lembrou que tinha uma bisavó negra. A Mariza não se cansa, agora, de invocar esse lado africano. Chegamos a um ponto no mínimo curioso: se alguém, negro ou com origens negras (ainda que remotas), disser que tem orgulho nas suas origens,  soa-nos bem. Vimo-lo como alguém que não renega as suas origens. E se esse alguém for artista, a imprensa e a crítica, com afã desmedido,  começa de imediato a “descobrir” subtis influências – que até aí não tinham sido detectadas – dessas origens na arte da pessoa em questão. Porém, se alguém assumisse (o imperfeito de conjuntivo não é inocente…) ter orgulho nas suas origens brancas, soar-nos-ia (a mim também..., a sério, tal é a força do novo preconceito!) a uma insuportável afirmação de pendor racista. E se esse alguém fosse uma figura pública, para além de cair o Carmo e a Trindade, os blokistas e outros afins, como cães a um osso, jamais o largariam. São os ventos…

Dito isto, direi que se fosse eleitor democrata nas primárias votaria na Hilary… Já estou a ouvir a alguns comentários surdos do género “cá está… gato escondido com rabo de fora... no fundo este tipo é um racista!”. A precipitação nunca foi boa conselheira, meus caros. Se fosse eleitor americano entre o Barack Obama e o Cain votaria no... Barack Obama!

Ciranda o sol

Ciranda o sol
De nascente a poente
De poente a nascente
Arco perfeito de um magoado violino
Ciranda lenta e em descrente procissão
Como se fora um solitário peregrino

Não procura a lua (o poeta é um fingidor...)
Procura a nua
Verdade das palavras por dizer

(Ó mar! Ó mar! Ó longínquo luar!)

Ciranda o sol
De nascente a poente
De poente a nascente
Arco perfeito de um magoado violino

Não procura a lua
Procura a rua
Onde ela, luar desfeito, aos Domingos vai rezar

Nem sinal da cruz...
Nem sinal de luz...


Senhora da Guia 4/5/08

Luminosidades

Reparo, agora, que o Sol já não bate nas vidraças da minha janela. Nem um raiozinho. Dizem-me que é assim nesta altura do ano. Que a astronomia explica isso. Quero acreditar na ciência...

A vida

"Ai amor, amores, do meu coração"...

Verso de Zeca Afonso

O jogo: Sporting 5 - Benfica 3

Ai Benfica Benfica. Meu Benfica.

Eram claros os dias

Os dias eram claros. Claros. Parecia-me que nunca tinham tido uma claridade assim. Abria uma janela e a luz inundava de luz todos objectos. Fechava-a e a luz teimava, teimava, e entrava pelas frestas mais estreitas. Tudo era luz. Luz. E quando anoitecia, o sol não desaparecia do céu. Ficava ao lado da lua. Continuava a iluminar a noite. Eram bonitos aqueles dias. Eram bonitas aquelas noites. O sol ao lado da lua. A lua ao lado do sol. O sol namorava a lua. A lua não sabia. Não sabia que o sol a namorava. Fingia que não sabia. A lua sorria. Sorria. O sol sorria. A lua falava, falava, o sol ouvia. Falavam muito. E quando acabava a noite e começava o dia, a lua continuava ao lado sol. Um dia o sol, inesperadamente, encheu-se de coragem e disse à lua que gostava da dela. (quem é que não gosta da lua?). O sol não viu o rosto da lua quando naquele dia e naquele momento lhe disse que gostava dela, mas tem uma certeza: a lua sorriu. A lua sorriu de certeza. A lua sabia há muito que sol gostava dela. E assim continuaram os dias: o sol a namorar a lua. A lua a fingir que não sabia. O sol a tocar a lua com os olhos. Os olhos do sol a tocarem a lua. Os olhos do sol a tocarem os cabelos da lua. A lua a fingir que não sentia. Assim continuaram os dias. Claros. Claros. Um dia na brincadeira, já a tarde entardecia, a lua perguntou ao sol se ele sol era capaz de a pedir em casamento. O sol riu-se. A lua riu-se. Riram-se os dois. O sol respondeu à lua: em casamento não. Os dois riram-se. Em casamento não, repetiu o sol. Riram-se os dois. Lia-se na cara do sol que o sol queria dizer algo mais. Encheu-se outra vez de coragem (o sol nunca fora muito corajoso com a lua) e disse: mas em namoro sim. Riram-se os dois. Os dois riram-se. A lua quis saber por que é que o sol não seria capaz de a pedir em casamento e já era capaz de lhe pedir namoro. Mas o dia, que começara a nascer do outro lado da terra, puxava o sol para debaixo da linha do horizonte. Puxava. Puxava. O sol já não tinha tempo para se explicar. Apressadamente, a correr, despediu-se da lua: «Beijinhos. Até amanhã». Disse a correr. Mal imaginava o sol o que ia acontecer.
Continua (um dias destes ou um dia)
Não sei bem porquê (estou a mentir, sei bem os motivos...), nestes últimos dias, tenho-me lembrado de uma comovente história de amor contada pela pena do escritor cuja escrita actualmente mais me fascina.  A paixão começou assim:



"Esta era uma das coisas que fazia desde pequeno, que tinha descoberto por acaso e que imaginava ser eu a única pessoa a fazer no mundo. Fechava os olhos e via. Via o que se vê com os olhos fechados. Via o negro dentro de mim e via os pontos de luz que o quebram, as vagas de luz, as figuras abstractas de luz, os vultos de luz, as sombras de luz dentro da luz do negro dentro de mim. Isto é o que se vê quando fechamos os olhos e continuamos a ver: a cor negra e os pequenos seres de luz que a habitam. E não se conseguem olhar fixamente nem para o negro, nem para a luz. Os pontos ou as linhas ou as figuras de luz fogem da atenção. O negro é tão absoluto, tão profundo e tão infinito que o olhar avança por ele sem encontrar um lugar onde possa deter-se. Mas, naquela noite, comecei a distinguir algo dentro desse negro. Lentamente, devagar, um a um, os pequenos pontos luminosos deslizaram no negro e, pela primeira vez, vi que tinham uma direcção. Lentamente aproximaram-se um dos outros numa harmonia que existia ainda sem lógica. Depois, lentamente, tudo muito lentamente os pontos de luz formaram cordões de luz sobre o negro que eram linhas de luz sobre o negro. Depois, começou a surgir cada contorno de um rosto e de um corpo. Muito lentamene, muito devagar, um a um, começaram a surgir os traços do rosto mais lindo que alguma vez tinha visto e do corpo mais lindo que alguma vez tinha visto. Era um corpo de luz sobre o negro. Era uma mulher. Olhei-a até ser completa. Olhei-a até ter a certeza de que nunca iria ver uma mulher mais bonita na vida. Deslumbrante. E, mesmo depois dessa certeza, continuei a olhá-la. Ela olhava-me também. Tímida, sem saber talvez se podia sorrir. E a pele que não podia tocar era a pele de uma noiva pura que apetece beijar e não se pode, a pele impossível de uma noiva a caminhar para o altar com flores nos cabelos. As mãos eram toada a ternura e toda a elegância do mundo se houvesse mundo suficiente para tanta ternura e tanta elegância. Tinha um vestido leve, que era um pano branco a moldar-lhe o corpo. Tinha uns lábios finos. Tinha uns cabelos longos de mulher. Quando abri os olhos e me levantei da cama, tinha aquele milagre dentro de mim. Descalço, despenteado, em pijama, atravessei a casa. Sentei-me à escrivaninha. Com a mão a tremer, seguro na esferográfica. E, assim que pousei a ponta da esferográfica sobre a folha do papel, a mão parou de tremer. Comecei a escrever as primeira palavras daquele que, imaginava com uma certeza infinita, iria ser o meu melhor livro. Tinha vinte e cinco anos, seis meses e dezanove dias.

Escrevi até ao princípio da manha aparecer na janela. (.......................). O sol a chegar à escrivaninha e a ser dia nas folhas brancas. Escrevi duas páginas. Descrevi-lhe o rosto, os olhos, os lábios, a pele, os cabelos. Descrevi-lhe o corpo, os seios sob o vestido, o ventre sob o vestido, as pernas. Descrevi-lhe o silêncio. E, quando, me parecia que as palavras eram poucas para tanta e tanta beleza, fechava os olhos e parava-me a olhá-la. Ao seu esplendor seguia-se a vontade de escrever e, de cada vez que repetia o exercício, conseguia escrever duas palavras ou, numa máximo uma frase. Quando a manhã apareceu na janela, levantei-me e voltei para a cama, adormeci a olhá-la. Adormeci com ela dentro de mim.
"


O livro que o personagem julagava que iria ser o seu melhor livro acabou por não passar de folhas (que o acompanharam durante toda a sua vida) porque era tão sublime a paixão e tão sublime o cíume que o personagem não conseguia, sequer, suportar a ideia que alguém mais o  pudesse ler. Nem, tão pouco, o editor... Porque quem o lesse, tal era a mestria da escrita, era como se pudesse tocar e usufruir do corpo objecto daquela paixão! E essa ideia era-lhe insurportável.

Uma Casa na Escuridão
José Luis Peixoto
Ed. Temas e Debates
Tu (beau soir)

Bela... e serena como a brisa calma
Que amena atravessa a cidade
Rio... rio leito de claridade
Que meigo corre entre as pedras de minha alma.

Vento que sopra, brando, a vela da minha barca

Rumor... rumor de madrugada
Cântico que os pássaros rumorejam
Murmúrio antigo de uma ária inacabada



Lisboa 21/3/08

Luminosidades


Palvras reescritas (em jeito de poema)


E isso que importa?
continuas bonita e luminosa
como aquele raiozinho de sol
que todos os dias bate na vidraça da minha janela
Bonita e luminosa
como naqueles dias distantes de convívio
(tão distantes e tão indelevelmente presentes)
E isso é que importa!

Escuta…
Vou segredar-te uma coisa.
Com serenidade.
Com a mesma serenidade com que aquele raiozinho de sol
ao cair da tarde abandona a vidraça da minha janela.
Uma coisa que não é coisa.

Que não sendo coisa
é mais, muito mais, que coisa
É coisa de alma

(etéreo aroma)
que há muito sinto

e que juro, juro, não minto
Gosto de ti.

Minha roma.

(e tu sabias)


Lisboa 27/2/08 e 19/3/08



Saudades

Já tenho saudades deste meu cantinho. Vou regressar. Em breve.

Viagens e memórias...

Se te lembrares manda-me, via espaço, o azul da Baía Azul e traz-me num bolso uma casuarina da Praia Morena. Do Cubal não me mandes nada. Não me tragas nada. Tenho tudo, tudo, inscrito na alma. Indelevelmente.

O Henrique foi mais uma vez fazer a viagem que eu sonho fazer um dia. Foi este o recado que lhe deixei.

A Noite de Reveillon

Dançaste lindamente. (afinal não havia motivo nenhum para receares...). Não parecia nada que tinham passado já tantos anos. Não trocámos um passo. Não te dei nenhuma pisadela. Dançaste lindamente. Com tanta elegância, com tanta leveza que mal te sentia nos braços (com pena minha...).

2008

"Quando o ritmo estupidamente frenético do dia a dia abranda e (já mais tranquilo) me rencontro comigo mesmo, uma coisa acontece sempre: lembro-me dos meus verdadeiros amigos . É o caso de hoje. Um Bom Ano."

Foi esta a mensagem que enviei aos meus amigos no últino dia do ano passado. Aqui fica registada.

Marcas indeléveis (do Império...) - 12

Cabinda

(Construção dos anos sessenta durante a guerra colonial)

Não sei se devia terminar a legenda com reticências ou com um ou mais pontos de exclamação. Juraria, no entanto, que quem acompanhe a série da RTP "guerra colonial" do Joaquim Furtado, (e não tenha estado em Angola nesses anos), perante esta foto ( e outras como a de baixo) optaria pelos pontos de... admiração!

Estação do Luso

(bem próximo estava a guerrilha)

A cor e a modernidade destas obras contrariam, pelo menos um pouco, o tom a "preto e branco" da série do Joaquim Furtado. Contudo, ambas - o que está nestas fotos e o que se vê na série televisa - foram uma realidade. A mesma realidade.
Bom dia! Este Bom dia dirige-se àquele (não sei quem - mas um amigo de certeza) que irá ser o 1000º visitante deste Avulso & ao Calhas e a todos os que quase diariamente, sem ser ao calhas, o visitam na tentativa, nos últimos tempos sempre frustrada, de lerem algo de novo. Nenhuma novidade encontram e... não desistem! Agradeço, cá do fundo, essa persitência. Neste caso a persitência é sinónimo de amizade. Obrigado e um bom dia para todos.

Luminosidades e coincidências...

Já se despediam pachorrenta e silenciosamente os últimos raios de Sol, quando lhe ocorreu que a mensagem que naquela manhã enviara iria passar em claro a noite que se aproximava com a indolência do costume. Nesse exacto momento fez-se ouvir um prolongado sinal sonoro. Espreitou: um raiozinho de sol acabava de chegar quando os outros, fugidios, já lhe viravam as costas.

Espantoso...

Há dias, ao fim de bastante tempo fui à minha caixa de correio pessoal. Sem dar por isso tinham-se passado seis meses desde a última vez que lá fora. E fui lá porque um amigo me disse que me tinha enviado um poema para eu comentar (como se eu fosse um especialista na matéria). A caixa estava cheia de mensagens, a maior parte delas era correio promocional de diversos produtos. É o que dá comprar qualquer coisa pela net - a seguir inundam-nos de publicidade. Não encontrei o tal poema que procurava (o Henrique julga que o enviou mas não enviou nada, coisa que a mim às vezes também me acontece). Mas deparei com uma mensagem que me surpreendeu e que muito me emocionou. Quem me escrevia tinha deixado essa mesma mensagem em Janeiro no meu post "Espantoso..." de 20/Out/06. Escrevi eu nesse post que nos anos sesssenta em Angola não eram muitos os negros que frequentavam a Escola, mas os que a frequentavam faziam-no na mesma escola que a dos brancos. Todos nos sentávamos nas mesmas carteira, bebíamos água da mesma torneira e jogavámos com a mesma bola, ao contrário do que sucedia nesses mesmos anos sessenta na democratíssima América. Aí a coisa piava mais fino. Nesse post mencionava os únicos colegas negros que frequentavam o Colégio onde eu andava: o Satumbo e o Chandamissa. O Satumbo sei que continua em Angola e já tive o prazer de o "ver", já, naturalmente, com menos cabelo e mais entradas, numa foto com um outro amigo de então, o "Garoupas". Quanto ao Chandamissa, colega de carteira, infelizmente apenas sabia que morrera na guerra que se seguiu à descolonização e que opôs o MPLA e a UNITA.

A mensagem que muito me tocou dizia o seguinte:

"Quando lia o blog algo despertou-me a atenção, o nome "Chandamissa". Se estava a referir-se ao Serafim Chandamissa, este é o meu pai. Gostava imenso de trocar algumas impressões - Delman Chandamissa".

Já não me lembrava muito bem qual era o nome próprio do Chandamissa. Não parece, mas já se passaram 4o anos! Mas só podia ser ele. Senti emoção nas palavras do Chandamissa filho. Praguejei contra este mau hábito de não consultar diariamente a minha caixa de correio. Tive receio, dado o que tempo que já se passara, que o tm que o Delman me dera já não "funcionasse" e, acima de tudo, tive receio que o Delman pudesse pensar que eu não não tivesse ligado nenhuma à mensagem que me deixara. Peguei de imediato no tm e liguei-lhe. Estava ocupado. Insisti. Por fim falei com ele. Chegámos rapidamente à conclusão que o Chandamissa, meu colega, era, efectivamente, o pai dele. Serafim Lara Chandamissa. Contou-me que não chegara a conhecer o pai. O pai foi preso em 1979 pelo MPLA e nunca mais a família soube dele. A família não tem dúvidas nenhumas de que foi morto mas nunca lhe entregaram o corpo. Nunca. Naquele ano, no rescaldo do Golpe do 27 de Maio desapareceram, assim, centenas de pessoas. Diz-me o Delman que tudo o que cheirava a intelectual era ceifado. Eu sei que foi assim.
O Delman vive na margem Sul. Está no último ano de Gestão Informática na Lusófona. Ainda pensei que fosse bolseiro de Angola. Não. Trabalha e estuda. Gostei muito de saber. E gostei muito de falar com ele. Pareceu-me uma pessoa afável como, aliás, era o pai dele, embora marcado pelos acontecimentos e muito empenhado em valorizar-se. Combinámos um copo para um dia destes.
Convidei-o a estar presente no próximo Encontro dos Antigos Estudantes do Cubal. Disse-me que tinha o maior prazer em conhecer os colegas do pai. E nós teremos a maior a maior alegria em conhecer o fillho do Chandamissa. Vamos esperar pelo Encontro.

Luminosidades...

Finalmente o sol, finalmente luz, finalmente um dia claro. (Finalmente volto ao meu blogue). Segreda-me, porém, o meu pisa-papéis – como se eu não desse conta – que há um raiozinho de sol que se esquiva por detrás de tanta claridade. Porque é que há sempre um porém a tingir o azul do céu ?

Eleições em França ...

Votei Sarkosy! Sei que desaponto muitos dos meus amigos com esta revelação. Que hei-de fazer!? Votei pela clareza (coragem) das suas opções em relação à emigração e ao seu não à entrada da Turquia na UE. Tão só por isto.

Luminosidades...

Lá fora a noite cai. Escura. Definitiva. Cá dentro há um fiozinho de luz que não escurece. Recusa-se. Serenamente. Silenciosamente.

Marcas indeléveis (do Império...) - 11


Cabinda - Hospital

Não parece antes uma antiga estância de férias para trabalhadores?

25 de Abril...

Ontem enviei a um amigo dos tempos de Coimbra, com quem vivi intensamente a chamada "Crise Académica de 1969" , a seguinte mensagem:

"Senhor poeta vamos dançar / caem cometas no alto mar / atiram pedras / arrancam dentes..."

Claro! Claro que estou a ouvir o Zeca! E, inevitavelmente, as memórias que a voz inagualável do Zeca me evoca, emerge em primeiríssimo plano a tua voz a misturar-se com a dele naquelas longas e inesquecíveis noites de Coimbra vagueando entre o Aquário, a leitaria do Raúl e a Clépsidra. Vagabundeando e cantarolando, madrugada adentro, as canções do Zeca.

"Senhor poeta vamos dançar...". Tenho saudades tuas. Tenho saudades de tudo.

Viva Abril! Que para ti, eu sei, é ainda uma "jornada de luta" mas que para mim é apenas evocação, memória e festa (interiores) onde entras sempre, sempre. Tu e outros amigos.»

O amigo de que falo é o meu querido amigo Hermínio.

Luminosidades...

Como ontem,
como ontem antes de ontem,
o céu continua azul.

Continua azul, azul, azul!

Continua azul...
para lá do cinzento das nuvens
(negro, quase negro)
que cobre todo o azul, azul, do céu.

Um amigo de sempre e para sempre

Hoje, como ontem, há milhões de pessoas que fazem anos. Pessoas simples, pessoas endinheiradas, cientistas, artistas, políticos, celebridades. De todos esses milhões, hoje, só há um que conta. Só há um que consta da minha agenda que trago chegada ao peito. Faz hoje anos! Não sei precisar quantos. Sei que são um pouquinho mais que os meus. (mas isso que importa ?!).
É pai do João e da Susana. Está quase a ser avô da Sara. É irmão de um amigo que por estes dias faz um ano que partiu não se sabe bem para onde mas que todos os dias o sentimos bem perto de nós. Bem perto daquela parte de nós que sente, que em silêncio chora e que dele sente a sua falta.
Vermelho, como eu, na camisola (gloriosa) que veste. Mas verde na militância!
Ao contrário de mim, quando promete que vai escrever uma história, escreve mesmo. E escreve bem. E de uma forma vertical. Na escrita é repentista, como repentista era no futebol de salão, antigamente. Não mastigava o jogo. Um ou duas fintas e rematava pronto, certeiro e com qualquer dos pés.
E ao fim deste anos todos continua em forma. Em grande forma. Física e lírica. Basta ver como em Férias Deslizo veloz neste silêncio/Apenas o sussurro da neve, na passagem/pensamentos ausentes. Bonito, muito bonito Henrique! É, é o Henrique que faz hoje anos! Um amigo de sempre e para sempre. Parabéns, meus caro! E um grande, grande abraço!

Marcas indeléveis (do Império...) - 10

Estação do CFB no Luso



Digam lá se não parece (descontando o preto e branco da foto) um desses viadutos modernos, custeados com fundos da UE, que cruzam as nossas cidades!

O regresso das luminosidades...

Finalmente uma "escapadela"... para voltar ao Blog! Para dizer qualquer coisa. Não sei bem o quê. Que aqui também há luz, há Sol, muito sol até, e que aquele raio de luz, aquele que fazia brilhar o meu pisa-papéis e me fazia nascer um brilhozinho nos olhos, ontem, pela primeira vez, nestas bandas, ao final da tarde, inesperadamente, roçagou o meu rosto. Para dizer a verdade não foi ele que me surpreendeu (verdade, verdadinha, isso, era o que eu gostava que tivesse acontecido). Fui eu que me pus à sua frente.

Luminosidades...

E agora como é que vai ser? Os prédios pombalinos, as águas-furtadas, as varandas de sacada, as janelas, os vidros das janelas, os reflexos dos telhados e dos prédios pombalinos nos vidros das janelas... a luminosidade das manhãs e dos fins de tarde. Sim, acima de tudo, a luminosidade dourada das manhãs e dos fins de tarde. Uma ou outra gaivota que cruza os telhados dos prédios pombalinos... Como é que vai ser? Como é que me vou dar sem tudo isto? É... vou deixar a Baixa de Lisboa. Já hoje. A vida profissional tem destas coisas. Mas espero que esta luminosidade... (única) não me abandone. Nunca. (levo comigo pelo menos um raio de luz... e o pisa papéis...)

A nossa escola

Subscrevo inteiramente: "O bom selvagem" de Francisco José Viegas. É na disciplina (que não há) que radica a ineficiência do nosso sistema de ensino. A "menina de cinco olhos" da velha direita (ou o espectro dela) e o pensamento/cultura da actual esquerda têm uma grande responsabilidade nisto.

Luminosidades...

Aquele raio de luz solitário, intruso, que até aqui apenas fazia brilhar o pisa papéis que tenho sobre a secretária, subitamente – não sei por que carga d’ água (gosto de fingir que não sei) – saltou-me para o rosto e para a alma e acalentou-me o resto do dia.

Pequenos pedaços de poesia (II)

Paul Celan
(1920-1970)


A morte é uma flor que só abre uma vez.
Mas quando abre, nada se abre com ela.

Abre sempre que quer, e fora de estação.

Luminosidades...

Subitamente o pisa-papéis da minha secretária brilha. Olho para o meu lado direito e reparo que é um raio de sol que se escapa pela janela adentro. O que faz este raio de sol por aqui, em zonas de minha jurisdição? Nada. Para além de fazer brilhar o meu pisa-papéis. Nada.

Voos da Águia

Desde Sábado 24 que esta águia (em prata) poisa no lado esquerdo do meu peito. (afinal sítio onde mora desde dempre). Vinte e cinco anos de dedicação!

Voos da Águia

Dínamo 1 - 2 Benfica

Missão e dever cumpridos. Em frente!

O segundo holocausto





É o mínimo a que a minha consciência me obriga e, infelizmente, o máximo que eu posso fazer: divulgar esta inquietante análise.

Quotidiano

Hoje é dia de Cozido e de Quadratura do Círculo. Raramente perco um destes pratos.

Marcas indeléveis (do Império)... 9

Ex-Praça Marcelo Caetano - Silva Porto

Quotidiano

A vida é feita de pequenos nadas. Entrou ontem em casa uma mesinha para a sala de estar. Estou encantado. Já tenho onde estender os pés!

Marcas indeléveis (do Império)... 8

Caminho de Ferro de Benguela

A ponte e a serpente

Luminosidades...

Os objectos à minha volta são nítidos. As ruas claras. Os recortes dos prédios quase lâminas. Os vidros reflectem a luz intensa do dia. A claridade tudo submerge. Só a minha varanda se queda pela penumbra. (Há quanto tempo não falamos?)
Receita para um cocktail

Fere-se de morte
o poema antigo
que em cíclicas ondas
a alma nos avela,

Recolhe-se uma taça rasa
da quente e cálida sangria,

Dissolve-se uma mão cheia
de leve, leve, melancolia.

Agita-se (com gesto e jeito de escanção).

Dá-se-lhe um cheirinho
a maresia.
(Apenas um cheirinho,
não mais que um cheirinho
que a maresia crava-se na alma).

Um travo de wisky
de puro malte,
dois ou três cubos de gelo
(p'a esfriar toda esta agitação)

e pronto…

Leva-se à boca
em repetidos e amenos versos,
à mistura com pianíssimas notas de Chopin
(de preferência os nocturnos 1 e 3)

Referendo

O SIM não tem um único argumento invulnerável (já o Não tem um que é inatacável: o direito do feto à vida) – a não ser a histórica incapacidade do país em assegurar as condições socioculturais que o voto no NÃO pressupõe e implica. Gostava de poder votar NÃO. A inexistência de tais condições obriga-me a votar "sim". É por isso um sim minúsculo, pragmático e envergonhado. Envergonhado para evitar uma vergonha maior: o vão de escada.

Marcas indeléveis (do Império)... 7

Caminho de Ferro de Benguela

Serpenteando...



O ventre da serpente...

Luminosidades...

Abro a fresta da janela. O Sol pousa nos telhados e escorre pela quietude das paredes. Invade a cidade. Todos os raios de luz me tocam. (Menos um...).

Marcas indeléveis (do Império)... 6


Silva Porto - Ex-Praça Marcelo Caetano


A modernidade presente (no passado).

Porto - 0 Estrela do Amadora - 1

O Glorioso, por aquilo que jogou com o Boavista, mereceu inteiramente a vitória do Estrela...

Benfica - 0 Boavista - 0

E dizes (Henrique) que não há Deus... Há! E muitos. E são todos do Boavista!

Era um dos nossos guarda-redes...

Nunca ninguém o conseguiu contactar para aparecer no Encontro (dos antigos estudantes do Cubal). No nosso Encontro. Ninguém sabia o seu paradeiro. Todos os anos se fazia um esforço para o contactar. Mas, nada. Dizia-se que andava pelo Barreiro. E eis que ontem, já ao cair do pano, abruptamente, em vez dele, é anunciada a sua morte. Em Gouveia. Não quis acreditar. Em vez de sinais de vida que há muito procurávamos, é a morte dele que se apresenta. Mais valia estar quieta. Quietinha. Ninguém a chamou! Porra!


Tinha aparecido no Cubal já nos anos sessenta, vindo da Metrópole, do Puto, das berchas. (era assim que na nossa linguagem nos referíamos a Portugal). Tímido, ingénuo, mas destemido - alías, guarda-redes não podia ser de outra maneira. Quando lhe deram os kedes (hoje ténis) para calçar e jogar pela Associação Académica do Cubal, chamou-lhes – muito apropriadamente – sapatilhas. Azar dele. Ficou para sempre "o Sapatilhas". Nunca mais se livrou do nome.

Até sempre Sapatilhas. Até sempre.

Luminosidades...

(Falei hoje contigo). E de repente há um Sol que irrompe pelas frestas deste dia cinzento e pachorrento. A tonalidade da luz é única. Não há outra assim. (Como tu).

O meu Cinema Paraíso

Ontem inaugurei em casa o meu ciclo de cinema paraíso com o “Dr. Jivago”. A primeira vez que o vi tinha 16 anos. Fiquei esmagado com a beleza da fotografia. Embevecido pela história de amor. Encantado pela música de Maurice Jarre – creio ter sido a primeira vez que retive o nome do autor de música e o nome do realizador. Até aí só fixava os nomes dos artistas principais. E, claro, claro, fascinado pela Julie Christie. Um azul de olhos que jamais vira (azul assim só o da baía Azul). Poucos anos mais tarde, uma colega na faculdade em Luanda, linda, linda, havia-me de fazer lembrar muitas vezes a Julie… e nem sequer azul tinha nos olhos.

A segunda vez, anos mais tarde, já iniciado nas minhas andanças de cavaleiro marxista, recusei vê-lo. Era uma patética história de amor (pequeno-burguêsa, claro) e contra-revolucionária!

Ontem foi a terceira. A fotografia continua a esmagar-me. A história de amor é uma história de amor. Falta-lhe, pareceu-me agora, paixão, sensualidade. A música é indissociável do filme. Não podia ser outra. A Christie continua linda, linda. Fez-me lembrar a minha colega da faculdade… (revia-a há pouco tempo, continua linda!)

A leitura política que faço da película é que sofreu uma… reviravolta! E era aqui que queria chegar. Perturbou-me o filme. Perturbou-me ver como que um idealista – Pasha Strelnikoff – se transforma, em nome da revolução (sempre em nome da revolução…) num tenebroso sanguinário. Incomodou-me o filme. Incomodou-me sentir que eu, em circunstâncias idênticas, fizera, (salvaguardas as diferenças de protagonismo, claro!) o mesmo e cretino papel – o de guarda da revolução. Ainda que este se tivesse apenas quedado pelo plano ideológico. Mas a verdade é que defendera os mesmos princípios: o partido acima de tudo – família, amigos, afectos. O partido acima das pessoas. Em nome do povo. Sempre em nome do povo. Em nome das massas populares! (era assim que dizíamos). Interpelou-me o filme. Profundamente: se em 75 a revolução leninista tivesse triunfado (não esteve longe disso), até quando é que desempenharia aquele papel? Até quando? Mais. E, talvez, mais angustiante: qual era a linha que eu jamais ultrapassaria? Assustou-me perceber que quando (e enquanto) se acredita na revolução e no partido essa linha de demarcação é muito ténue. O partido toma conta do coração e apodera-se da razão. O partido passa a ser a razão de sermos. E a razão passa a ser a do partido. E é aqui, neste ponto, que se é capaz das maiores crueldades. Basta que a revolução o exija. Basta que o partido ordene.

Incomodou-me. Mas fez-me bem ver o filme. Recomendo-o aos meus amigos (e cavaleiros que foram comigo) das andanças marxistas.

Marcas indeléveis (do Império)... 4



Clube Desportivo Ferrovia - cidade do Cubal


Repare-se nas linhas arquitéctónicas. A foto é da época (1962?), mas a modernidade do edifício é actual. Actualíssima. Era aconselhável que o "ippar" de Angola iniciasse a inventariação e preservação do património respeitante ao período colonial. Estamos a falar do património de Angola. Nossas são apenas as marcas indeléveis.

Segunda-feira...

Hoje apetece-me fazer tudo. Tudo menos aquilo que tenho para fazer – que é tudo.

Marcas indeléveis (do Império)... 3


Palácio do Governador em Benguela

Amigos que vêm de longe!

O Sombreiro, visto do lado da Caotinha

Dentro de dias, muitos poucos, se tudo correr bem até lá (que o mesmo é dizer se Deus quizer), irei somar mais um aniversário. Já são muitos. São muitos se pensar que as ondas dos meus cabelos já lá vão e, pior, grande parte dos cabelos também... Mas são poucos se pensar que gosto muito de estar. Especialmente quando estou com os meus amigos – o que acontece raramente – com os meus amigos de sempre. Aqueles que são mais firmes e seguros que os imbondeiros.
Ontem, ao visitar um blog de um destes amigos (grande, grande amigo), deparei com este post. Comoveu-me saber (e sentir) que aquelas palavras foram moldadas para mim – e isto de juntar palavras e harmonizá-las, dar-lhe corpo, não é tarefa fácil. Para além desta prenda, presenteou-me com uma outra – um cd de música das nossa terra. Tendo gostado das duas, é fácil perceber qual é que me tocou mais. Obrigado Henrique.

Marcas indeléveis (do Império)... 2

Banco de Angola em Malange


"Viagens com ou sem memória" (3)



O Presidente da República mostrou-se surpreendido com os inúmeros sinais que os portugueses deixaram na Indía. Não imaginava ele que a nossa presença por aquelas terras tinha deixado marcas tão indeléveis.

O que a mim me surprende é a sua surpresa. Há uns livrinhos de História que contam tudo.

Antecipando outras viagens do Presidente da República aos novos países da lusofonia e a fim de lhe poupar novas supresas, inauguro hoje uma exposição fotográfica avulsa e ao calhas sob o tema:

Marcas indeléveis do Império (1)

Igreja da missão do Bimbe


"Viagens com ou sem memória" (2):


“Cacimbo a cacimbo, de calema em calema, os nossos velhos ergueram lugares, vilas e cidades onde, antes, só havia mato e capim! Uniram margens, outrora intransponíveis! Abriram picadas, rasgaram caminhos. Uns de ferro, outros de terra batida, mais tarde de alcatrão. Edificaram escolas. Construíram portos. Ensinaram a ler, a escrever, a fazer contas. Substituíram o cazumbir e o feiticeiro, pela sulfamida, o quinino, a penicilina, o enfermeiro e o médico. Numa esteira estendida pelo chão, no quimbo ou na sombra de uma mangueira, quantas vezes com amor, outras por precisão, fizeram mulatos, morenas de Angola, garotas de Ipanema! Que sonetos mais bonitos podiam ter feito? Vejo e oiço os dirigentes deste meu Velho País. Arrepiam-se, como eu, quando em pedras esquecidas pelo tempo e pelos homens, e corroídas pela erosão dos séculos, se decifram tenuemente as Cinco Quinas esculpidas por mãos sem nome e sem rosto. Emocionam-se, como eu, quando ouvem palavras soletradas em português por bocas famintas de gente humilde em lugares longínquos e inóspitos onde, perante tão grande lonjura, se pergunta, mas ali havia gente? Também ali chegámos? Palavras ditas com sotaque em que o artigo definido ou indefinido, admiravelmente, não concorda, quanto ao número com o substantivo que o acompanha. Palavras que têm o sabor das manga, dos coco e das goiaba. Emocionam-se e logo se lembram, como eu, de citar Pessoa: a Língua Portuguesa é a minha Pátria! Mas a nenhum deles ocorre perguntar, como eu tantas vezes me pergunto, com a ironia de quem sabe de antemão a resposta, quem é que construiu essa Pátria sem fronteiras a que chamam, agora, com acerto, Lusofonia? Quem é que lhe desenhou o corpo, tisnou a pele e lhe deu alma? Sem ter consciência disso, eu sei. Mas quem foi? Quem é que teceu esses laços que nem a erosão do tempo, as distâncias e as guerras lograram destruir e que, agora, todos dizem querer preservar e cuidar como se de frágeis flores se tratassem? Quem é que espalhou essas palavra portuguesa, como se fossem sementes, por essas terra longínquas? O vento não foi certamente..., diria um outro poeta, embora, pela grandeza da obra, mais parece ter sido mister da natureza do que dos homens! Quem foi? Quem foi? Quem foi, então!?

Eles, os dirigentes deste meu velho país, sabem tão bem como eu. Mas não ousam dizê-lo. Prisioneiros do que é politicamente correcto, não têm a coragem do poeta de Abril que gritava bem alto: “Há que dizer-se das coisas o somenos que elas são/Se for um copo é um copo/ se for um cão é um cão”.
 
Vá! Não tenham medo da palavra! Foram os colono! Porra! Foram os colonos! Chiça!

Foram os nossos velhos! Os que há muito partiram, os que partiram há pouco, os que – como o meu pai – em breve partirão e os que – como nós – um dia partirão. Mais ninguém! Eles que (sem saber) escreveram tantas páginas da nossa História,  a História (feita hoje) reservar-lhes-á apenas as mais sujas (que as houve)… Tamanha injustiça!
 
Não foi uma obra desinteressada? Tem páginas negras? Gerou injustiças? Correram lágrimas e sangue? Apontem-me obra humana sem mácula, inocente, pura, perfeita!

Isto foi parte do que, há uns anos, escrevi, talvez com excessiva emoção, a propósito da morte de um antigo professor e da morte do meu pai que então se esperava para breve.