Uma História (Henrique não prometo...)

Estava um dia abrasador. Apesar da impiedade com que o Sol àquela hora ameaçava fustigar quem ousasse desafiá-lo, era grande a correria e a gritaria, e sufocante o manto de poeira que logo se levantava. A hora era a do recreio das dez. O mais longo dos períodos que intervalavam as aulas da manhã, e, naturalmente, o mais impacientemente desejado. Não havia tempo a perder: Os que eram capazes de dar dois toques seguidos na bola sem a deixar cair, e de a controlar vitoriosamente até aos montinhos de areia que singelamente demarcavam as balizas, fazendo sentar com um gingar de corpo quem lhes surgisse pela frente, organizavam num abrir e fechar d’olhos uma aguerrida jogatina – tantos para um lado, outros tantos para outro. Os dotados de inato talento, naturalmente, eram os primeiros a ser seleccionados. Ora para um lado, ora para o outro.
As raparigas, e os rapazes que ficavam de fora daquela implacável triagem, optavam por um outro jogo mais saudável – a barra do lenço. Apenas exigia concentração e velocidade na corrida. Para os rapazes, envolvia um atractivo extra – às vezes a desenvoltura e a corrida atabalhoada desnudava as pernas das raparigas bem mais acima do que era habitual e apercebiam-se, boquiabertos, de formas que só em puros devaneios eram tangíveis. Nos dias que se seguiam, à noite, o deslumbramento dessas visões convocava inevitavelmente a fantasia de quem tinha tido esse supremo privilégio; Os mais impetuosos e inclinados a alguma violência elegiam um outro passatempo. Chamavam-lhe o garrafão: o azarado que se distraísse e fosse tocado pela mãe dentro das linhas do denominado garrafão (desenhadas no chão com a simplicidade de uma gravura rupestre) era severamente punido com tapas ao longo do dorsal enquanto não lograsse alcançar e tocar, ainda que fosse com aponta dos dedos, o muro distante que fora previamente escolhido para coito.
Aquela algazarra e gritaria, misturadas com as ondas de poeira em ebulição, abafavam seguramente o costumeiro alvoroço do mais animado mercado árabe.
Apenas um rapaz franzino, cabelos ondulados e castanhos, calções curtos e justos ao adelgaçado corpo, que contava quase tanto de idade como os dedos das suas pequenas mãos, se isolara daquela enorme balbúrdia e agitação. À sorrelfa, mas sem deixar no entanto de assumir um estilo que, claramente, procurava que se assemelhasse a um dos galãs de cinema que venerava, levou à boca a beata que restara de um cigarro que na tarde anterior surripiou do cinzeiro de pé que cirandava pela sala de estar da casa de um tio que lhe era muito querido. Deu umas baforadas e encostou-se ao velho muro, empalidecido pelo tempo, que delimitava o átrio do colégio do passeio que ladeava a artéria principal daquele lugar distante, parado e perdido nas savanas do continente Africano.



Com a cabeça levemente inclinada para o chão, ora pontapeando os pedaços de argamassa que se iam soltando do carcomido muro e das paredes envolventes, ora calcando premeditadamente o escasso e raso capim, que rente ao muro conseguia sobreviver ao jogo da bola e àquelas desvairadas brincadeiras que ali diariamente se repetiam, ali estava o Edmundo, pensativo, encostado não só àquele velho muro, mas também a uma pergunta que há muito tempo o assaltava e para a qual não tinha ainda encontrado resposta e não sabia se alguma dia a encontraria. Era algo de estranho. Algo que não sabia explicar. Um mistério que apesar de muito nele cismar, não lograva decifrar.


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2 comentários:

Anónimo disse...

Finalmente o escritor toma as rédeas do seu destino.
Estarás sempre nos meus favoritos.
Um abraço
www.noitevertical.blogspot.com

Manuel Sampayo disse...

Meu caro Henrique, não exageres! Eu não escrevo (no sentido literário), eu alinhavo apenas umas linhas... Qualquer das formas, obrigado pelo teu incentivo.
Um abraço.